quarta-feira, 3 de novembro de 2021

“Não acredito em trama repetida, acredito em modo de contar” - afirma Lícia Manzo

 No próximo dia 8/11, a Globo estreia a novela "Um Lugar ao Sol", assinada por Lícia Manzo, com direção artística de Maurício Farias. A produção finalmente marca o retorno das novelas inéditas na faixa das oito das nove da noite, se vocês preferirem, da emissora.


Devido a pandemia da Covid-19, essa crise sanitária que atingiu o planeta, os seus 107 capítulos foram escritos durante a pandemia e "Um Lugar ao Sol" irá estrear totalmente gravada, o que acaba fazendo dela uma "novela fechada". De forma alguma, não há possibilidade de fazer alterações no decorrer do folhetim, de acordo com as exigências do público/audiência – algo que ocorre muitas vezes e o caracteriza as tramas abertas.

A trama central é sobre gêmeos (vividos por Cauã Reymond) separados na primeira infância, de condições sociais opostas e que se conhecem adultos. Enquanto o rico é morto, o pobre assume seu lugar e sua vida.


Ter gêmeos numa trama, é um clássico do folhetim. Esse recurso já foi visto em muitos autores, como, por exemplo, de Ivani Ribeiro a Janete Clair, passando por Aguinaldo Silva e João Emanoel Carneiro: O Outro, Mulheres de Areia, A Usurpadora, Cara e Coroa, Da Cor do Pecado e tantas outras. O próprio Cauã Reymond já viveu gêmeos, na minissérie Dois Irmãos (2017).

A Globo promoveu uma coletiva de imprensa (virtual), na última quinta-feira 28/10, com a autora, diretor e parte do elenco.


Lícia obviamente foi perguntada sobre o imenso risco de colocar no ar, uma obra já pronta e que não tem a possibilidade de ocorrer mudanças, caso não tenha aceitação. A autora argumentou da seguinte forma:

“Isso resultou em um tempo maior de feitura [roteiro e direção], no tempo de preparação do capítulo. Se eu tenho tempo para errar, provavelmente eu vou chegar em um resultado melhor, que infere em um cálculo maior (…) A gente tem uma segurança maior. A gente está trabalhando em um ritmo um pouco menos industrial e, nesse sentido, um pouco menos arriscado.”

Ela foi questionada por uma escolher um tema tão recorrente em novelas, como já falamos. Lícia foi clara e disse: 

“Não acredito em trama repetida. Acredito em modo de contar. Acho que a autoria vem antes da história.”

“Vou tentar comunicar [ao público] como para mim é original. Porque não importa a troca [dos gêmeos]. Não é o fato o que está em jogo. É a repercussão do fato dentro dos personagens. Eu estou mais interessada na subjetividade dos personagens e nas camadas psicológica e social que esse jogo me traz.”

Ainda assegurou na coletiva, que não é seu objetivo inovar nada.

“Eu não persigo uma novidade. Persigo uma história que me mova, que seja verdadeira para mim. E, nesse sentido, acho que ela é nova, porque é minha, porque nasceu de uma necessidade legítima minha de contar essa história.”

Ela narrou como concebeu a trama de sua novela: “Na hora não lembrei de O Clone e Mulheres de Areia – embora sejam novelas ótimas que estejam no nosso imaginário, no meu também.”

Chocada com depoimentos de jovens que, ao completarem a maioridade tiveram de deixar o abrigo para menores onde foram criados, a autora, ao assistir ao documentário Meus 18 Anos, da GloboNews, começou a pensar a trama central de Um Lugar ao Sol.

“Ao perceber na maioria daqueles jovens a esperança preservada de estudar e ter um futuro, uma pergunta me veio de imediato: no Brasil de hoje, com apenas 14% dos adultos com curso superior, cerca de 13 milhões de desempregados, e um quarto da população vivendo em situação de pobreza – serão seus sonhos realizáveis?”, reflete a autora.

A autora imaginou um protagonista nessas condições, com um sentimento de que as oportunidades lhe tivessem sido usurpadas.

“A história era realista, me parecia boa, mas eu não tinha um elemento de folhetim. Ele quer outra vida, ele quer uma vida que foi vetada a ele. Como na história do duplo, que diz que todos nós temos, que alguém está vivendo a sua vida em algum lugar em uma trama paralela que não é a sua. E se essa outra vida existisse em algum lugar e ele ficasse obcecado por isso?”

“Então a história é muito mais sobre alguém que fica obstinado pela vida que foi roubada dele. Você pode pensar ‘ah, o gêmeo foi separado’, mas pode pensar também que no Brasil oportunidades são roubadas, diariamente, da maior parte da população, e que é legítimo que eles olhem pro outro lado com muita cobiça.”

“Então minha tentativa é não vilanizar esse irmão que toma o lugar do outro. Ele não conspira, nem faz nada nesse sentido. Ele é um criminoso semiacidental.”


O diretor Mauricio Farias saiu em defesa da autora e também comentou sobre o folhetim: 

“Lícia foi buscar a tragédia que passa por dentro do folhetim. Ela busca, dentro dessa trama aparentemente folhetinesca, as consequências da tragédia, o destino operando [sobre os personagens], que às vezes joga em um caminho que não tem mais como retornar. Como é a vida.”

“Lícia usa o folhetim para fazer uma narrativa absolutamente contemporânea. Usa isso com uma elegância e uma precisão muito interessantes. A novela vem com vários avanços na narrativa. O mais interessante são os temas que acompanham, os assuntos que Lícia traz sob o formato do folhetim.”

Lícia: “A novela pode ser lida da proposta realista, mas é também um folhetim clássico.”



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