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sexta-feira, 1 de abril de 2022

Lícia Manzo reflete sobre 'Um Lugar ao Sol'

 

Reflexão e dever cumprido

No último dia, 25, foi ao ar o último capítulo de "Um Lugar ao Sol", trama de Lícia Manzo, que estreou no horário no nobre, a autora fala da sensação deve cumprido, depois de um imensa dedicação de quatro anos. Nem mesmo a pandemia de Covid-19, a maior crise sanitária do século, a tiraram do seu norte, e o mérito ela compartilha com todos os envolvidos.


Numa entrevista, Lícia abre o coração, faz um balanço e uma reflexão sobre seu folhetim que foi muito comentado nas redes sociais. 

Ela faz referências a Guimarães Rosa, John Cassavetes, Antonio Francisco Bonfim Lopes, que se transformou em Nem, líder do tráfico de drogas na Rocinha, e Darcy Ribeiro, mostrando o quão humana é a sua obra. Criadora de personagens que podem ser bons e maus, sem maniqueísmo, assim como qualquer um de nós, Lícia se vê na pele de cada um deles. "Eu me identifico com todos ou seria incapaz de escrevê-los. Até os mais obscuros."

Gostaríamos que fizesse um balanço da novela, a sua primeira no horário nobre, os desafios de ter gravado durante a pandemia e de fazer uma obra fechada.

Foram quatro anos de dedicação à Um Lugar ao Sol. Apenas em minha equipe tive a sorte de poder contar com a entrega e investimento de sete profissionais que respeito e admiro. Como diz a célebre canção: "se tivesse mais alma pra dar, eu daria". Um Lugar ao Sol é fruto do meu total investimento.

Com relação ao horário chamado de "nobre", o que posso dizer é que escrevi essa novela com o mesmo amor e empenho que as demais. Nunca ambicionei nenhum horário específico. Importa para mim seguir escrevendo, honrando meu ofício.

No que diz respeito à pandemia, sim, foram necessárias diversas adaptações de produção: locações, externas, crianças ou idosos em cena – muita coisa precisou ser alterada. Ainda em função da pandemia, a novela precisou ser encurtada e depois estendida. De todo modo, o comprometimento e entrega da equipe de autores, direção, técnica, elenco, não foi alterado. Graças a isso, a novela se impôs.

Observando a repercussão do público, existe alguma trama que você mudaria, caso fosse uma obra aberta?

Uma obra aberta é diferente de uma obra fechada. São modos de produção distintos. ‘Um Lugar ao Sol’ é uma obra fechada e penso que deve ser avaliada como tal.

Rebeca foi uma das personagens preferidas, tida inclusive como uma ‘nova Helena’, referência às protagonistas das tramas de Manoel Carlos, as anti-heroínas. Você acredita que muitas mulheres tenham se visto na personagem e se beneficiado com o legado deixado por ela?

Nas redes sociais, onde mantenho uma conta fechada, mulheres ou movimentos ligados a questões como envelhecimento feminino, menopausa, etarismo, replicam cenas de Rebeca com comentários e depoimentos enriquecedores. É com muito entusiasmo que assisto à criação desse fórum.

Juventude, sexo, beleza, são imperativos sociais. E a menopausa transforma ou chacoalha os três. Talvez venha daí o impulso de tentar silenciar, negar, desconhecer, o assunto.

Antes da internet, das redes sociais, do Google, com quem nossas mães conversavam a respeito? Me dói pensar em gerações e gerações de mulheres que viveram em seus corpos mudanças e transformações tão importantes em silêncio e sozinhas.

Existiu para você um núcleo preferido, ou um personagem com o qual você mais se identificasse? Se sim, qual foi e por quê?

Eu me identifico com todos ou seria incapaz de escrevê-los. Até os mais obscuros. Se tenho um tanto da sabedoria de Noca ou Ravi, tenho também a ambição torta de Christian. O eixo e a integridade de Érica, misturados com a imaturidade e falta de autoapreço de mulheres como Bárbara, Julia, Stephany.

Penso que ninguém é uma coisa só e que o ser humano é esse "mistura e manda". Acertamos e erramos, alternando momentos nobres com outros francamente baixos ou covardes. Foi Guimarães Rosa quem escreveu: "As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas. Elas vão sempre mudando; afinam ou desafinam, verdade maior". Procuro levar essas palavras comigo quando vou escrever.

Boa parte dos personagens teve o seu lado vítima e vilão. Acha que isso os aproximou do público?

Jamais pretendi que Christian, por exemplo, fosse um herói ou um vilão. Acredito no intervalo entre as duas coisas, na complexidade e na ambivalência das pessoas. Uma de minhas referências na construção de Um Lugar ao Sol foi a biografia de Antonio Francisco Bonfim Lopes - que se transformou em Nem, líder do tráfico de drogas na Rocinha. "O Dono do Morro", escrito por Misha Grenny, narra a vida de um jovem pai, trabalhador e honesto, que, diante da grave doença de sua filha pequena, vê sua vida girar de ponta cabeça. A absoluta falta de estrutura para salvar a criança, a indigência de nosso sistema de saúde, a vida num barraco precário onde nem janela existia – tudo isso empurra Nem para o tráfico - e para a persona terrível que assumiria depois.

Não estou buscando desculpar Nem. Assim como não o satanizo. A vida me parece mais complicada, apenas isso. Idem as pessoas. Darcy Ribeiro escreveu que o Brasil é uma máquina de moer gente. Christian foi triturado por uma ambição que se confunde com a revolta mais do que legítima de se sentir socialmente excluído.

Os traumas do passado e a vida em si foram os grandes vilões de Um Lugar ao Sol?

Acredito que o homem é o lobo do homem. Cada um de nós duela consigo mesmo. John Cassavetes disse algo perfeito: "não me interessa saber como as pessoas enganam umas às outras; mas como enganam a si mesmas". Cada um é seu próprio inimigo.

Christian, devorado pela própria ambição. Nicole, incapaz de se aceitar. Rebeca, que não se permite amar Felipe e se submete a um homem como Túlio. Túlio, que infarta no trabalho, incapaz de frear sua sede de poder. Stephany, incapaz de livrar-se de Roney. Roney, repetindo a história do pai violento e abusador. Ilana, que se impede de viver seu amor por Gabriela, enfim. A lista é imensa. Mas são esses impedimentos pessoais, íntimos, que mais me interessam na hora de escrever.

Lícia Manzo faz um balanço de "Um Lugar ao Sol"

 

Autora fala sobre erros e acertos de seu folhetim de estreia no horário nobre

"Um Lugar ao Sol" chegou ao fim no último dia 25, trama que marcou a estreia de Lícia Manzo no horário nobre, a autora de sucessos como “A vida da gente” (2011) e “Sete vidas” (2015), no horário das seis, fez um balanço da trama que girava em torno do êmeo pobre que toma o lugar do outro, rico vividos por Cauã Reymond, história esta também que abordou temas como preconceito social e racial, gordofobia e abuso emocional. O agora ex folhetim das nove, estrou todo gravado, devido a crise sanitária da Covid-19; Lícia defende suas escolhas para os finais dos personagens.


Quais foram os maiores acertos e erros de “Um lugar ao sol”?


Meu maior acerto foi não me economizar, me entregar inteiramente ao trabalho. Meu maior erro também, pois terminei exaurida. Foram quatro anos de dedicação integral à novela. Em minha equipe, apenas, tive a sorte de poder contar com a entrega e investimento de sete profissionais que respeito e admiro. Como diz a célebre canção ‘se tivesse mais alma pra dar, eu daria’. ‘Um lugar ao sol’ é fruto do meu absoluto e total investimento.


Qual o balanço você faz da experiência de escrever sua primeira novela das nove com uma pandemia atravessando a exibição?

Fé na capacidade de adaptação e superação das pessoas. Foram enormes desafios humanos, artísticos, empresariais. A soma do esforço e entrega de cada um viabizou o resultado.


Christian teve uma relação tóxica com Bárbara (Alinne Moraes). Qual mensagem você quis passar ao retratar essa união?


Nenhuma mensagem ou resposta. Apenas levantar perguntas: mudar o outro parece um projeto possível, saudável? Na raiz da codependência de Bárbara está o nó de tantas mulheres: buscar no outro a solução para os próprios problemas. Existe uma herança cultural por trás disso: a mulher resgatadora, que deve cuidar do marido. E me parece que a ficção serve como espelho: é patético o esforço de querer que o outro se equilibre para que possamos nos equilibrar.


Rebeca (Andréa Beltrão) debateu vários temas importantes, mas a cena em que ela se masturbava deu o que falar. Por que o prazer feminino é um tabu?

Em comentários nas redes, encontrei repetidas vezes a observação: ‘cena desnecessária’. Uma mulher, num casamento tóxico e desgastado, dispensa o sexo com o marido para encontrar prazer no próprio corpo, em si mesma. Um movimento de libertação legítimo. Mas enquanto a busca do prazer feminino estiver vinculada à ideia de vulgaridade, a cena seguirá, acredito, sendo classificada como incômoda ou ‘desnecessária’.


Você é uma mulher na faixa dos 50 anos e retratou muito bem os dilemas e desejos de Rebeca e Ilana (Mariana Lima) na novela. A Rebeca funcionou como uma espécie de alter ego pra você? Com qual personagem você mais se identifica?

Me identifico com todos ou seria incapaz de escrevê-los. Mas no caso de Rebeca, sim, penso que tenho ‘lugar de fala’.


Nicole (Ana Baird) passou a novela sofrendo por ser gorda, sem se aceitar. Por que optou por tratar a gordofobia assim?


Como o próprio nome diz: gordofobia; fobia, aversão, exclusão da pessoa gorda. Há uma indústria que fatura alto com isso. Ana Baird, a Nicole, é ativa na militância pró corpo livre. Ela confessa que, na idade da personagem, ainda se detestava. Tornou-se capaz de amar o próprio corpo e a si mesma há pouquíssimo tempo. Ela tem 51 anos. Poderia ter criado uma personagem gorda já resolvida. Levando em conta o mundo que temos hoje, infelizmente, essa não me pareceu uma abordagem realista. É importante que a mulher que rejeita a si própria possa se enxergar de fora, e perceber como é cruel subjugar-se a opiniões, preconceitos, dietas, remédios e procedimentos malucos e desnecessários. A autoaceitação é um longo caminho.


Stephany (Renata Gaspar) foi vítima de violência doméstica a novela toda. Numa das cenas mais bonitas da personagem, ela finalmente cria coragem para denunciar o marido e parece que vai se livrar dele. Mas acabará sendo assassinada. Por que a personagem tem um fim tão trágico?


Movimentos de libertação ou cura nunca caminham em linha reta. Recaídas são parte do processo. Stephany é adicta em adrenalina. Na turbulência e nos ‘ups and downs’ de sua relação com o marido. Há também a questão do capital marital. A separação, para a mulher, ainda é vista como uma perda, um desprestígio. Soma-se a isso a manipulação psicológica, o gaslighting, e todas as artimanhas utilizadas por um psicopata narcisista como Roney. Tudo faz Stephany oscilar entre ir e ficar. Criada sem pai nem mãe, contando apenas com o apoio da irmã um pouco mais velha, Stephany cresceu sem perspectivas. É uma mulher sem estrutura, de baixa autoestima. A ponto de embarcar numa relação com Renato/Christian mesmo sabendo que ele não a ama; que está ali por chantagem.


Com relação ao fim trágico da personagem, o Brasil ocupa hoje o 5º lugar no ranking mundial de feminicídios. Uma mulher é morta a cada 7 horas - muitas vezes dentro de casa. Stephany, desde o início da trama, é um personagem trágico, um trem bala desgovernado, e por isso não me pareceu crível desenhar para a trama uma redenção cor de rosa. Mulheres morrem assassinadas, infelizmente. E ‘Um lugar ao sol’ é uma obra realista.


Como está sendo o processo de despedida da novela? Você pensa em seguir escrevendo para horário das nove? Quais são seus próximos projetos profissionais?


Nunca ambicionei o horário das nove ou nenhum outro em específico. Naturalmente, penso em seguir escrevendo, mas meu único projeto agora é me refazer, descansar.

sábado, 26 de março de 2022

Balanço final

 

Chegou ao fim "Um Lugar ao Sol"

Ontem (25), sexta-feira, foi ao ar, o último capítulo de "Um Lugar ao Sol", folhetim de estreia de Lícia Manzo no horário nobre. E lamentavelmente a trama ficará marcada com um verdadeiro fracasso, a obra amarga um título nada agradável: a pior audiência da história na faixa – média de 22 pontos no Ibope da Grande São Paulo. E não merece isso de jeito algum, apesar dos problemas ocorridos no meio dessa trajetória.

São inegáveis as qualidades da novela, da direção ao elenco bem escalado. Principalmente o texto da autora, reconhecido como um dos melhores de nossa TV, com diálogos ricos que levam à reflexão, tramas repletas de dilemas humanos, personagens de várias camadas e discussões de interesse da sociedade.

Coloco "Um Lugar ao Sol" como a novela certa, porém no momento errado, pois estamos de uma ressaca do período de pandemia. Na minha concepção isso não deveria ser um fator para a trama flopar, mas o público que muitas vezes é chato, reclamou de sua trama  densa, com personagens sofredores e convites à reflexão não correspondia à expectativa do telespectador. Alguns aderiram, porém infelizmente a maioria ainda queria a fantasia exacerbada em vez da realidade pouco atraente nesses tempos difíceis.

Emissora boicota seu próprio produto

Infelizmente "Um Lugar ao Sol" foi tratada como um tapa buraco pela Globo. A emissora foi extremamente negligente na divulgação da novela.  A emissora sempre tratou-a como um tapa-buraco para o “grande lançamento” de 2022, o remake de "Pantanal".

Tanto que, mesmo antes da estreia de "Um Lugar ao Sol", "Pantanal" já recebia os holofotes em grande estilo, muito mais que a novela de Lícia Manzo. Um desrespeito total com o produto, com os atores, com autora.

Muito se falou também, que ocorreu a falta de opinião popular, pois, a novela foi ao ar já totalmente escrita, o que a levou à contramão de um dos pilares do folhetim: a aferição do público.

No século 19, José de Alencar já consultava seus leitores para saber se aprovavam suas histórias parceladas publicadas em rodapés de jornais (os folhetins), quem dirá nos séculos seguintes, em que os grupos de discussão tornaram-se necessários, às vezes imprescindíveis.

Por outro lado, Lícia Manzo conseguiu manter-se fiel à originalidade de sua obra – o sonho de todo roteirista.

Ai fico me perguntando, o que a autoria teria mudado se pudesse ouvir a audiência? Teria feito concessões a casais “shippáveis“? Teria adicionado mais humor? Teria mudado rumos de personagens contrariando sua ideia inicial?

"Um Lugar ao Sol" entregou meses de sessões de terapia e discussões dramáticas em que nem mesmo bonitas frases de efeito e personagens leves e sutis foram capazes de aplacar o peso das abordagens. Certas pessoas afirmam que sentiram falta de humor, que novela tem existir nem que seja um pouco de alívio cômico. Deixo bem claro aqui, não senti falta de alívio cômico e não acho que toda novela precisa de humor. 

E a própria Lícia já nos provou isso, com pouco (ou nenhum) alívio cômico, características de suas novelas anteriores, A Vida da Gente (2011-2012) e Sete Vidas (2015). Repito, eu não senti a mínima de falta de humor, isto não é trama de Walcyr Carrasco. 

Mais uma vez a Globo ferrou a novela com uma reedição. "Um Lugar ao Sol" estava quase na metade de sua exibição quando desceu uma ordem da alta direção: a novela precisaria ficar mais uma semana no ar, para atender às gravações atrasadas de "Pantanal".

Quando a obra é “aberta”, ou seja, é escrita à medida em que é exibida, o impacto não é grande. Porém, a trama de Lícia Manzo já estava fechada, com capítulos editados.

Por duas ou três semanas, o que se viu foram a reedição de cenas e cortes malucos com o objetivo de fazer a novela render mais.

Isso prejudicou um grande princípio do folhetim: o “gancho“, o clímax ao final do capítulo que dá continuidade à trama no dia seguinte. Sem o gancho, não há fidelidade do público, da audiência.

Muita gente reclamou também de apelo popular, que Lícia não tem (mesmo tendo feito enorme sucesso no horário das 6), ela possui um texto incrível. Existe uma máxima na televisão que afirma que “pobre gosta de ver rico na TV“. Gilberto Braga e Manoel Carlos foram os que melhores a absorveram. A questão é que Gilberto e Maneco eram populares, com personagens cativantes e tramas folhetinescas e dinâmicas.

Nesta comparação para muitos Lícia se perde, mesmo com um texto lindo, profundo, muitos dizem que a autora carrega um certo pedantismo, colocando na boca de personagens elitizados expressões que não são usuais ou desconhecidas do grande público. Prece que para o povão soa pernóstico e cria uma má vontade da audiência com o folhetim. 

Ouvir algumas pessoas nas ruas, dizendo que a autora não está falando apenas a uma elite, mas ao povão. É meio que para essas pessoas uma regra do folhetim, falar com o povão, todavia qualidade de texto Lícia tem de sombra. 

Todavia não só vi críticas a "Um Lugar ao Sol", segundo dramaturgo e diretor teatral, Lucas Martins Néia, ele afirma sobre o último capitulo "Fiquei com a mesma sensação que tive ao ver o fim de #AVidaDaGente (2011) e  #SeteVidas (2015) - não é que a história termina na última cena: nós é que deixamos de acompanhar a vida das personagens naquele momento. Elas ainda têm muito a acertar e a errar, pois são irremediavelmente humanas."

Segundo o jornalista Pedro Lima, foi muito interessante acompanhar a trama "Quero dizer o quão interessante foi acompanhar toda a trajetória inversa do protagonista sendo corrompido por sua ambição e pelo sistema. A novela, que despede do horário das nove da #TVGlobo, tem um texto, direção, fotografia, trilha sonora impecáveis. Uma pena ter sido tão subestimada pelo grande público."

Lícia Manzo usa muito bem a seu favor – é a capacidade de emocionar o público. Foram inúmeros personagens, cenas e diálogos que não só emocionaram, como também fizeram refletir, que esclareceram ou ajudaram a compreender, que divulgaram ou alertaram sobre temas importantes.

A sequência do antepenúltimo capítulo em que Rebeca dá uma entrevista discursando sobre o preconceito com pessoas mais velhas (etarismo) é uma das melhores já mostradas na televisão.

A maior qualidade da autora – já vista em seus trabalhos anteriores – esteve presente durante toda a novela: a representação da pluralidade do ser humano. "Um Lugar ao Sol" trouxe os dilemas éticos e morais que todos enfrentam, às vezes sem perceber, nos quais todos se refletem e se reconhecem.

Também a complexidade das relações, dos interesses e dos desejos versus as demandas sociais; a capacidade de despertar a empatia, de desenvolver o olhar sobre o outro; e a disposição em aderir às concessões que a vida impõe, vistos em personagens como Christian, Renato, Lara, Ravi, Bárbara, Rebeca, Noca, Nicole, Elenice, Joy, Ilana, Breno, Júlia, Cecília, Stephany e outros.

E aplausos pra todo elenco, com muito destaque pra Juan Paiva. 





sábado, 19 de março de 2022

Texto incrível

 

Lícia Manzo nos traz um texto fabuloso em "Um Lugar ao Sol"

Outro dia, vimos que a atriz Lilia Cabral postou numa de suas redes sociais, um vídeo, onde contracenava com Marcos Caruso, em "Páginas da Vida" (2006), na trama ela era a vilã Marta, uma uma mulher fria e mãe cruel. Na legenda da postagem, Lilia escreveu que "essa foi a cena mais difícil e bonita de fazer". E completou: Manoel Carlos e sua grande dramaturgia. Muitas vezes ela faz uma referência ao ótimo texto de Maneco e com motivos.

Maneco recebeu o apelido de 'cronista do cotidiano' pelas histórias que mostravam os personagens em suas atividades prosaicas do dia a dia. Foi um ritmo, que desapareceu da TV, todavia, tinha muitos méritos. Ele também era capaz de criar sequências antológicas e não apenas pelo desempenho brilhante de profissionais como Lilia e Caruso. Os diálogos primorosos, afiados, sensíveis e de grande poder de comunicação com o público marcavam essas cenas. Sem dúvida alguma, era imenso um prazer para o espectador. E sempre serão lembrados. 

E com o passar dos últimos anos, vejamos que existe uma herdeira desse estilo em nossas novelas, e ela é Lícia Manzo, e isto já foi reconhecido numa entrevista pelo próprio Maneco. Lícia é adepta a um ritmo um pouco mais devagar, prova disso é  "Um Lugar ao Sol", todavia, suas histórias também chamam a atenção pelos diálogos de imensa qualidade, mesmo quando a ação fica em segundo plano. E vimos isto no capítulo da última quarta-feira (16), com Érica (Fernanda Freitas) e Santiago (José de Abreu), ambos estavam num velório, ou seja, nada acontecia. A conversa dos personagens era o que importava. Ela foi longa, bem construída e importante para a trama, porque Érica estava digerindo a perda da irmã. Quando o texto é bom, é algo incrível, pode ter certeza que todos os atores saem deste folhetim engrandecidos. 


quarta-feira, 16 de março de 2022

Público não vive sem um bom clichê

 

"Um Lugar ao Sol", folhetim de Lícia Manzo está em sua reta final e vejamos da divulgação nas coletivas online, que Lícia deixou claro que sua novela não era uma mera trama de gêmeos, como tantas que nós telespectadores, já vimos. 

E com o passar do tempo a explicação dela ficou bem clara, passou longe de ser isto. Ela teve a ousadia em matar Renato (Cauã Reymond) logo no começo do enredo e depois focar apenas na saga de Christian (Cauã) usurpando a vida do irmão foi merecedora de elogios.

Lícia optou pelo mais difícil: confiar na potência de sua narrativa e evitar situações óbvias envolvendo trama de gêmeos. Não teve gêmeo bom e gêmeo mau. O jovem Renato era inconsequente e problemático, mas passou longe da vilania. Christian era um sujeito íntegro, mas também estava longe de ser uma pessoa boazinha.

Ambos eram sujeitos repletos de contradições. Depois de um tempo, ao chegar no lugar que tanto almejou, ficou claro que o falso Renato se transformou em algo muito pior que seu irmão.

Mesmo com alguns problemas no decorrer da trama, como, por exemplo, alguns conflitos que acabaram caindo na repetição e a edição dos capítulos por conta de um esticamento forçado pela Globo, "Um Lugar ao Sol" tem muita qualidade.

Vejo nas redes sociais, as pessoas reclamando a ausência do Renato. Boa parte do público, esperava uma volta triunfal do irmão morto para desmascarar Christian, mesmo após a cena exibida nas primeiras semanas, quando Lara (Andreia Horta) viu o corpo de Renato no Instituto Médico Legal (IML) e achou que era de Christian.

A possibilidade do retorno, nunca existiu. Renato foi metralhado pelos traficantes que cobravam uma dívida de Christian. Todavia, parte do público, ainda pensando nessa possibilidade. O fato é que a esperança do público, apenas mostra que muitos não vivem sem um clichê, clichê este que é muitas vezes ridicularizado por essas próprias pessoas que estão pensando nessa alternativa. 

Se Renato volta-se, Lícia seria completamente massacrada pela crítica, pois a maioria dos críticos detestam clichês e plots.

Só que o ama mesmo fingindo detestar para não parecer ‘menos inteligente’. Eu não sou contra o clichê. Todo bom folhetim precisa dele. Há autores que usam muito e outros que aproveitam menos. Depende do estilo de cada um e tudo bem. Existem produções para todos os gostos.

"Um Lugar ao Sol" é uma novela que ousou na narrativa. Fugiu do óbvio, ainda que tenha todos os elementos clássicos dos folhetins. Lícia Manzo foi corajosa e merece reconhecimento.

Ao mesmo tempo, a trama provou que muita gente reclama de clichês mas, no fundo, não sabe viver sem eles.

sexta-feira, 11 de março de 2022

Virada desnecessária

 

Lícia Manzo que é um autora conhecida por ter tramas realistas e que não existe grandes viradas, e isto não é um demérito, vide "A Vida da Gente" e "Sete Vidas", duas tramas das seis, que são primorosas, mostram isso. 

Porém no entanto em "Um Lugar ao Sol", Lícia nos trouxe algo diferente, foram diversos momentos de tirar o fôlego e com reviravoltas muito bem construídas. Mostrou que saber fazer quando quer. Todavia, a mudança de comportamento de Stephany (Renata Gaspar) se mostrou uma virada desnecessária. 

A moça protagoniza uma situação extremamente grave e constantemente presente na vida de diversas mulheres brasileiras  e muito presente na vida de várias mulheres: a violência doméstica. Várias novelas já retratam o assunto e autora vem tratando com seriedade. Roney (Danilo Granghéia) é um elemento violento e abusivo. Stephany nunca conseguiu se livrar do companheiro e acaba sempre cedendo aos teatros emocionais. Retratando muito a realidade, demorou muito para ter coragem e denunciá-lo por agressão, mas, retratando a realidade, nada aconteceu com ele. Mesmo assim, acaba reatando em vários momentos.

Ao contrário da irmã, Érica (Fernanda de Freitas), Stephany não tem muita instrução. Já teve atitudes questionáveis, como insinuar que a irmã deu um golpe do baú no ricaço.

Todavia, sempre foi uma ótima amiga com Érica e amorosa com o sobrinho. Depois de mais uma agressão sofrida, recebeu a ajuda de Renato, que atendeu ao pedido da esposa de Santiago (José de Abreu).

Para fugir do marido, Stephany aceitou ficar no apartamento que era de Ravi (Juan Paiva). Depois que Renato a deixou no local, a moça deu um beijo no marido de Bárbara (Alinne Moraes). Foi um gesto questionável, porém, até compreensível analisando a carência daquela mulher que nunca recebeu um carinho do esposo.

Só que esta muito complicado comprar o que vem ocorrendo com Stephany desde então, ela encontrou um celular da Joy (Lara Tremourox) numa das gavetas e conseguiu acertar a senha de acesso.

No aparelho, Joy deixou um vídeo para o filho, ainda um bebê, contanto que Ravi é cúmplice de Renato e que o melhor amigo do pai dele se chama Christian e roubou a vida do gêmeo. A mãe deixar um vídeo para uma criança, que nem completou dois anos, chantagear o pai? E achar que o pai não veria esse celular muito antes do filho? Sem nexo algum. 

E pra piorar, é que Stephany se transformou completamente por conta do vídeo. Ela foi imediatamente até o escritório de Renato chantageá-lo. Se tornou uma mulher sem escrúpulos do dia para noite e ainda ameaçando o sujeito, que tinha ajudado a escapar da violência que sofria. Ficou bastante claro que a Lícia optou por essa manobra para causar alguma movimentação na trama nesta reta final. Um dos motivos disso, é por que as tramas das oito ou das nove, como vocês preferirem, recebem uma cobrança imensa do público e até mesmo da emissora, para serem ágeis o tempo todo.

Todavia, é melhor não ter uma certa agilidade a custa de mudanças drásticas no roteiro. E acrescentando que Renato a subornou com uma boa quantia, e também cedeu ao beijo dado por ela no dia anterior. Ou seja, se tornou amante para ter sua identidade preservada. Esse fato é  condizente com o que o protagonista está se mostrando. Com certeza, ele é muito mais canalha que Renato. 

A construção do personagem central está incrível. Todavia havia a necessidade de mexer na personalidade de Stephany para uma situação que todos sabem que não dará em nada.

Todos que descobrem a verdade sobre Christian morrem, mas não pelas mãos dele. É quase certo que a jovem será assassinada pelo marido, retratando uma rotina que continua implacável em nosso país.  

"Um Lugar ao Sol" segue merecendo elogios, todavia, a autora se equivocou na trajetória de Stephany nas últimas semanas. E a situação também reforça o desrespeito da Globo com Lícia em virtude do encurtamento da trama. A situação provavelmente seria melhor trabalhada, o que evitaria ficar sem nexo do jeito que foi. 

quarta-feira, 9 de março de 2022

Protagonista de Um Lugar ao Sol o grande vilão da trama

 

A autora Lícia Manzo criou um protagonista que é o antagonista da história. Para muitos é impossível torcer por Christian/Renato.

A história do personagem, começou com de uma forma bacana e com pretensões de crítica social: até onde vão o caráter, a moral, a ética e os princípios quando a pessoa já nasce sem oportunidades, ou quando as oportunidades lhe são negadas.

Sem dúvida alguma é uma ideia que já rendeu livros, filmes e outras novelas. Essa semana, Lícia citou Jean Valjean, de “Os Miseráveis“, praticamente comparando a trajetória de Christian/Renato à do personagem de Victor Hugo.

Muitas pessoas se questionaram, se ele era um anti-herói ou vilão, e ao longo dos quatro meses do folhetim, ao longo de quatro meses de novela, o desejo de Renato pelo poder tornou-o o grande vilão da história.

E as pessoas afirmam que não adianta uma música bonita (“Outra Vez“) para embalar cenas românticas com Lara. Não combina, não fecha. 

Algumas pessoas dizem que o personagem não tem carisma e não merece a torcida do público. 

Na comparação com Jean Valjean, talvez a autora pretendesse atribuir ao público o papel de Javert, o contraponto moral do herói de Victor Hugo.

Independentemente de qualquer boa ação que Renato possa ter, estamos nós, tal qual o antagonista de Valjean, julgando e condenando, culpando e atribuindo punição ao personagem de Cauã Reymond.






sábado, 20 de novembro de 2021

História muito bem amarrada

Eletrizante

"Um Lugar ao Sol", o seu novo folhetim das oito ou das nove (se preferir), tem dado o que falar. Mesmo sendo desprestigiada pela própria emissora (ao não ter sido colocada no ar um mês antes ou em meados do mês passado), e neste início começando em horários alternativos devido aos jogos da Seleção, tem tido uma audiência baixíssima, mas nem por isso, a trama escrita por Lícia Manzo, tem sido imensamente elogiada por quem esta acompanhando e tem feito sucesso no Globoplay. 

Na primeira semana foram muitas emoções, não enrolaram para os gêmeos se conhecerem, o público foi bombardeado com muitas informações, para depois a autora engrenar na história que quer nos contar. Lícia não nos decepcionou de forma alguma nesses primeiros capítulos, nos mostra uma história imensamente armada com tantas possiblidades, repleta de dramas envolvendo dilemas morais e éticos.

O gêmeo que passa por cima de convenções morais e éticas para tomar o que julga ser de seu direito. A morte de Renato fez surgir das sombras o outro lado de Christian, agora em um novo Renato.


Vimos que a história do herói, com certeza, é sempre cheia de desafios. O Christian não tinha outra alternativa, assumia o lugar do irmão rico (óbvio, que também movido pela ambição), ou ele se entregava a polícia e acabava preso por envolvimento com o tráfico ou e ainda corria o risco de ser morto pela bandidagem ao descobrirem que eliminaram o cara errado. 

Ravi também passa por um dilema, como o jovem negar um pedido de Christian, pois por ele que o rapaz se envolveu com os traficantes, para livrá-lo da cadeia. Christian diz o seguinte “Você sabe que eu não sou ladrão, assim como você sabe que não é nenhum pivete que roubou uma carteira“.

Como de costume, o texto Lícia é repleto de sutilezas e ironias, frases de reflexão e conversas incríveis entre os personagens, à uma direção artística de Maurício Farias luxosa. 

O elenco esta muito bem, excelente interpretação de Cauã Reymond, Andreia Horta, Alinne Moraes e Marieta Severo (que sutileza em diversas cenas). Juan Paiva como Ravi vem sendo muito elogiado, o garoto provando todo seu talento, já mostrado em Malhação Viva a Diferença e Totalmente Demais. 



O segundo capítulo foi exclusivamente dedicado a narrativa da “trajetória do herói”. Já terceiro capítulo se tornou antológico: os gêmeos se conhecem, passam a noite juntos, o acaba sendo suficiente para Christian (o Cauã Pobre) descobrir as informações que ira precisar para sua transformação, e Renato (o Cauã Rico) acaba assassinado.

No quarto capítulo tivemos cenas excelentes, o Christian ouvindo calado a DR de Bárbara e descobrindo detalhes sobre a relação dela com Renato e que inclusive, ela era vítima de um relacionamento conturbado, extremamente tóxico. Bárbara solta uma frase fantástica e que marca o capítulo, a moça diz o seguinte  “Eu pensei que você tivesse morrido, mas a verdade é que você não morre. Você sempre reencarna na minha vida!“.

Quando vimos o discurso de Christian, se justificando para Ravi, logo lembramos às falas da memorável Maria de Fátima em Vale Tudo (1988): “O pais tá ferrado! Eu tô exausto de ser tratado mal. Isso aqui é o Brasil! Só um idiota romantiza a pobreza. Você acha que o governo tá prestando atenção em você? Se a vida nunca foi correta comigo por que eu tenho que ser correto com a vida?“.

O rapaz também se remete a outro personagem clássico das novelas, Cristiano Vilhena, de Selva de Pedra (1972), que deixa para trás a vida modesta e simples que teria com a mulher amada, Simone, seduzido pela fortuna e poder que Fernanda pode lhe proporcionar.

 Não por coincidência, Um Lugar ao Sol é o nome do filme (baseado no romance de Theodore Dreiser) que inspirou Janete Clair a escrever Selva de Pedra. No filme, de 1951, o triângulo central é formado por Montgomery Clift, Shelley Winters e Elizabeth Taylor.



Vamos prestar atenção na relação entre o protagonista e Elenice (Ana Beatriz Nogueira), mãe de criação de Renato, que no passado - rejeitou Christian. Ana Beatriz Nogueira sempre ótima em viver mães problemáticas, vide Rock Story, Além do Tempo, Em Família, A Vida da Gente, Caminho das Índias e outras novelas.

Lícia Manzo usa a literatura para levar à reflexão. No primeiro capítulo, Tonico Pereira, o professor, presenteia Christian com uma edição de “Memórias Póstumas de Brás Cubas“, de Machado de Assis, e lê: “Melhor cair das nuvens que de um terceiro andar“. Complementa: “O perigo não é sonhar alto, grande, e não conseguir. O perigo é sonhar curto, medíocre e chegar lá“.

No sexto capítulo, Santiago (José de Abreu) lê para Christian/Renato um trecho de “Esaú e Jacó“, também de Machado: “Não é a ocasião que faz o ladrão. O provérbio está errado. A ocasião faz o furto. O ladrão já nasceu feito“. A cena aconteceu durante o casamento de Renato e Bárbara – a ocasião e o ladrão.





terça-feira, 9 de novembro de 2021

Primeiras impressões de "Um Lugar ao Sol"

 Um Lugar ao Sol estreia com excelente texto, boa direção e um Cauã Reymond bastante compenetrado 

 Finalmente um folhetim inédito no horário nobre. E melhor ainda a estreia de "Um Lugar ao Sol", de Lícia Manzo, que estreou ontem, segunda-feira (08), não nos decepcionou em momento algum. 

Mesmo que a edição tenha corrido demais num primeiro bloco, ao contar a trajetória inicial do protagonista Christian e seu gêmeo Renato (a internet já os apelidaram de Cauã Pobre e Cauã Rico), infelizmente quem não sabe do se trata, acabou se perdendo, pois deveria ter prestado bastante atenção; o entusiasmo pela novela é imenso.


Do segundo bloco pra frente conhecemos a excelente abertura (ao som de BaianaSystem), e passados alguns anos, com os personagens estabelecidos no Rio de Janeiro.

Os clichês foram imensos, mas um excelente folhetim precisa ter aqueles velhos clichês, como o pobre que tem dignidade, por isso não aceita dinheiro; o segredo de família revelado no leito de morte; o protagonista, moço esforçado e sofrido, que lê Machado e aprendeu inglês ouvindo Beatles.

Maurício Farias, que assina a direção artística, parece ter acertado muito junto com um texto excelente. E o que dizer de Andreia Horta, que em poucas aparições esteve radiante. Também quero parabenizar a atuação de Juan Paiva, parece que já nos cativou com seu personagem, Juan é muito talentoso.

O folhetim se chama "Um Lugar ao Sol", porém parece contraditório, passada no Rio de Janeiro, entretanto exibe a Cidade Maravilhosa em tom pastel, dispensando luz a cor. Com certeza essa seja a visão do mundo pelos olhos de Christian, cujo direito ao lugar ao sol lhe foi negado.

Que venham os próximos capítulos! 


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

“Não acredito em trama repetida, acredito em modo de contar” - afirma Lícia Manzo

 No próximo dia 8/11, a Globo estreia a novela "Um Lugar ao Sol", assinada por Lícia Manzo, com direção artística de Maurício Farias. A produção finalmente marca o retorno das novelas inéditas na faixa das oito das nove da noite, se vocês preferirem, da emissora.


Devido a pandemia da Covid-19, essa crise sanitária que atingiu o planeta, os seus 107 capítulos foram escritos durante a pandemia e "Um Lugar ao Sol" irá estrear totalmente gravada, o que acaba fazendo dela uma "novela fechada". De forma alguma, não há possibilidade de fazer alterações no decorrer do folhetim, de acordo com as exigências do público/audiência – algo que ocorre muitas vezes e o caracteriza as tramas abertas.

A trama central é sobre gêmeos (vividos por Cauã Reymond) separados na primeira infância, de condições sociais opostas e que se conhecem adultos. Enquanto o rico é morto, o pobre assume seu lugar e sua vida.


Ter gêmeos numa trama, é um clássico do folhetim. Esse recurso já foi visto em muitos autores, como, por exemplo, de Ivani Ribeiro a Janete Clair, passando por Aguinaldo Silva e João Emanoel Carneiro: O Outro, Mulheres de Areia, A Usurpadora, Cara e Coroa, Da Cor do Pecado e tantas outras. O próprio Cauã Reymond já viveu gêmeos, na minissérie Dois Irmãos (2017).

A Globo promoveu uma coletiva de imprensa (virtual), na última quinta-feira 28/10, com a autora, diretor e parte do elenco.


Lícia obviamente foi perguntada sobre o imenso risco de colocar no ar, uma obra já pronta e que não tem a possibilidade de ocorrer mudanças, caso não tenha aceitação. A autora argumentou da seguinte forma:

“Isso resultou em um tempo maior de feitura [roteiro e direção], no tempo de preparação do capítulo. Se eu tenho tempo para errar, provavelmente eu vou chegar em um resultado melhor, que infere em um cálculo maior (…) A gente tem uma segurança maior. A gente está trabalhando em um ritmo um pouco menos industrial e, nesse sentido, um pouco menos arriscado.”

Ela foi questionada por uma escolher um tema tão recorrente em novelas, como já falamos. Lícia foi clara e disse: 

“Não acredito em trama repetida. Acredito em modo de contar. Acho que a autoria vem antes da história.”

“Vou tentar comunicar [ao público] como para mim é original. Porque não importa a troca [dos gêmeos]. Não é o fato o que está em jogo. É a repercussão do fato dentro dos personagens. Eu estou mais interessada na subjetividade dos personagens e nas camadas psicológica e social que esse jogo me traz.”

Ainda assegurou na coletiva, que não é seu objetivo inovar nada.

“Eu não persigo uma novidade. Persigo uma história que me mova, que seja verdadeira para mim. E, nesse sentido, acho que ela é nova, porque é minha, porque nasceu de uma necessidade legítima minha de contar essa história.”

Ela narrou como concebeu a trama de sua novela: “Na hora não lembrei de O Clone e Mulheres de Areia – embora sejam novelas ótimas que estejam no nosso imaginário, no meu também.”

Chocada com depoimentos de jovens que, ao completarem a maioridade tiveram de deixar o abrigo para menores onde foram criados, a autora, ao assistir ao documentário Meus 18 Anos, da GloboNews, começou a pensar a trama central de Um Lugar ao Sol.

“Ao perceber na maioria daqueles jovens a esperança preservada de estudar e ter um futuro, uma pergunta me veio de imediato: no Brasil de hoje, com apenas 14% dos adultos com curso superior, cerca de 13 milhões de desempregados, e um quarto da população vivendo em situação de pobreza – serão seus sonhos realizáveis?”, reflete a autora.

A autora imaginou um protagonista nessas condições, com um sentimento de que as oportunidades lhe tivessem sido usurpadas.

“A história era realista, me parecia boa, mas eu não tinha um elemento de folhetim. Ele quer outra vida, ele quer uma vida que foi vetada a ele. Como na história do duplo, que diz que todos nós temos, que alguém está vivendo a sua vida em algum lugar em uma trama paralela que não é a sua. E se essa outra vida existisse em algum lugar e ele ficasse obcecado por isso?”

“Então a história é muito mais sobre alguém que fica obstinado pela vida que foi roubada dele. Você pode pensar ‘ah, o gêmeo foi separado’, mas pode pensar também que no Brasil oportunidades são roubadas, diariamente, da maior parte da população, e que é legítimo que eles olhem pro outro lado com muita cobiça.”

“Então minha tentativa é não vilanizar esse irmão que toma o lugar do outro. Ele não conspira, nem faz nada nesse sentido. Ele é um criminoso semiacidental.”


O diretor Mauricio Farias saiu em defesa da autora e também comentou sobre o folhetim: 

“Lícia foi buscar a tragédia que passa por dentro do folhetim. Ela busca, dentro dessa trama aparentemente folhetinesca, as consequências da tragédia, o destino operando [sobre os personagens], que às vezes joga em um caminho que não tem mais como retornar. Como é a vida.”

“Lícia usa o folhetim para fazer uma narrativa absolutamente contemporânea. Usa isso com uma elegância e uma precisão muito interessantes. A novela vem com vários avanços na narrativa. O mais interessante são os temas que acompanham, os assuntos que Lícia traz sob o formato do folhetim.”

Lícia: “A novela pode ser lida da proposta realista, mas é também um folhetim clássico.”



quinta-feira, 15 de julho de 2021

Andréia Horta e Cauã Reymond gravam cenas quentes em praia

 

Andréia Horta e Cauã Reymond gravaram cenas quentes de "Um Lugar ao Sol", a nova novela das 9 da TV Globo. Os atores participaram de sequências na areia na praia do Grumari, no Rio de Janeiro. Eles interpretam os papéis centrais da trama inédita, assinada por Lícia Manzo, e que irá substituir a edição especial de "Império". 

Os atores estão envolvidos com as gravações da novela desde janeiro deste ano. Por conta da pandemia do coronavírus, as gravações respeitam novos protocolos de segurança e são realizadas em um ritmo menos acelerado. Numa entrevista para a revista "Quem", Andréia adiantou que Laura, sua personagem, não se assemelha ao personagem que vive em "Império". “São personagens muito diferentes. Maria Clara era riquíssima, filha do cara que construiu um império e vivia em um núcleo sem empatia, um monte de gente querendo a grana daquele pai… Laura é completo oposto, é de outra classe social, com um coração cheio de empatia e senso de justiça.”

O elenco de "Um Lugar ao Sol" conta ainda com nomes como Denise Fraga, Marieta Severo e Alinne Moraes. Responsável por sucessos como "A Vida da Gente" (2011) e "Sete Vidas" (2015), a escritora Lícia Manzo fará sua estreia como autora titular na faixa das 21h.


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