terça-feira, 2 de novembro de 2021

Gilberto Braga, o que melhor retratou a elite em novelas

 


Falar de Gilberto Braga é falar de genialidade, ele que nos deixou em 26/10/2021, aos 75 anos, nasceu no Rio de Janeiro em 01/11/1945. Adotou o sobrenome Braga de sua mãe. Era casado há 48 anos com Edgar Moura Brasil. Giba como era carinhosamente conhecido, antes de brilhar e se tornar um dos maiores nomes da história da televisão brasileira, foi professor de francês e crítico de teatro e cinema na imprensa carioca.


Em 1973, Gilberto estreou na Globo roteirizando Casos Especiais. Sua primeira experiência em telenovela foi dividindo com Lauro César Muniz a autoria de Corrida do Ouro, em 1974. No ano seguinte, foi colaborador de Janete Clair na novela Bravo!, enquanto duas adaptações suas, de obras literárias, eram exibidas no horário das seis: Helena, de Machado de Assis, e Senhora, de José de Alencar.


Entre 1976 e 1977, escreveu outras adaptações que já mostravam o domínio do jovem autor ao roteirizar telenovelas: Escrava Isaura e Dona Xepa, dois grandes sucessos daquela época. Foi a deixa para Gilberto estrear no horário nobre em grande estilo: em 1978 escreveu Dancin’ Days, que virou mania nacional e consagrou o novelista. Um sucesso avassalador. 

Seguiu com outros folhetins (Água Viva, Brilhante, Louco Amor e Corpo a Corpo), até que, em 1988, Gilberto Braga mobilizou o país com Vale Tudo (escrita com a parceria de Aguinaldo Silva e Leonor Bassères), um dos maiores clássicos da TV brasileira, debatendo corrupção e o “jeitinho brasileiro”. E ainda nos trouxe “Quem matou Odete Roitman?”, pergunta que paralisou o país no último capítulo. Como já diversas vezes "Vale Tudo" é  considerada por muitos especialistas “a melhor novela brasileira de todos os tempos”.


Segundo Nilson Xavier, do site "Teledramaturgia", ele lembra vagamente da  época em que ia ao ar a novela Senhora (em 1975 ele tinha tinha seis anos), o primeiro contato dele com Gilberto foi na reprise de Escrava Isaura em 1979. Lembro quando passou Dancin´Days, Água Viva e Brilhante (entre 1978 e 1982), pois os  pais não permitiam o horário nobre para crianças. Ele pode acompanhar Água Viva em 1984, na reprise vespertina.

Em 1983, Louco Amor, um sucesso popular – do bordão “E, e eu não sei, Gonçalo?”, de José Lewgoy. Curioso que, apesar do sucesso de audiência, Gilberto não gostava dessa novela, já que ela não passava de um emaranhado folhetinesco muito próximo dos dramalhões mexicanos.


Corpo a Corpo – é um folhetim pouco lembrado – mas deu o que falar na época em que foi exibida (1984-1985): tinha o diabo personalizado na figura do ator Flávio Galvão e um debate sobre racismo nunca antes vista em uma telenovela. Essa novela, Gilberto gostava!

Anos Dourados, a minissérie de 1986, foi um sucesso. Não tinha como não se encantar com o “puppy love” entre Marcos e Lurdinha (Felipe Camargo e Malu Mader). E, de quebra, Dona Celeste, a megera visceral interpretada por Yara Amaral. Com O Primo Basílio (1988), Gilberto retomava a adaptação de um clássico da literatura (de Eça de Queiroz). E tivemos Marília Pêra em um de seus melhores papeis na TV: a sinistra empregada Juliana.

O Dono do Mundo (1991) decepcionou muita que gente que esperava uma Vale Tudo 2. Boa parte do público não comprou a heroína tonta Márcia (Malu Mader), que se deixou seduzir pelo sacana Felipe Barreto (Antônio Fagundes) em plena noite de núpcias com seu noivo.


Anos Rebeldes (1992) é outra daquelas obras emblemáticas de nossa Teledramaturgia. Retratou de maneira contundente os “anos de chumbo” da Ditadura Militar. Como pano de fundo, a história de amor de Maria Lúcia (Malu Mader) e João Alfredo (Cássio Gabus Mendes).

Pátria Minha (1994) fechava a trilogia das novelas que se colocava a  discutir mazelas da sociedade brasileira (com Vale Tudo e O Dono do Mundo). Porem, por mais que o autor tenha tentado levantar questões sociais, os problemas conjugais reais entre Vera Fischer e Felipe Camargo (do elenco) acabaram chamando mais a atenção do público do que a novela em si.


Labirinto (minissérie de 1998) nos trouxe um Giba policial. Em Força de um Desejo (1999-2000, escrita com Alcides Nogueira e Sérgio Marques), ele estava de volta em uma trama de época do horário das seis. Celebridade (2003-2004) ficou marcada pela pérfida dupla Cachorra e Michê (Laura de Cláudia Abreu e Marcos de Márcio Garcia) e Paraíso Tropical (2007, escrita com Ricardo Linhares) pelo irresistível casal Bebel (Camila Pitanga) e Olavo (Wagner Moura).

Seguiram-se Insensato Coração (2011, com Ricardo Linhares) e Babilônia (2015, com Ricardo Linhares e João Ximenes Braga). Esta última, infelizmente marcada pela rejeição do público.


Gilberto Braga será para sempre lembrado pelas abordagens policiais (foram vários “quem matou?”) e pela retratação da elite carioca. Ele foi o autor que melhor retratou o high society, com charme, glamour e sofisticação, sempre com apelo folhetinesco, imprescindível a toda telenovela, e com uma visão irônica da aristocracia.

Gilberto era o nosso Balzac. Tia Celina e Odete Roitman concordariam.





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