segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Partes da entrevista com João Emanuel Carneiro

 Trechos da entrevista de João Emanuel Carneiro hoje pela manhã sobre Todas As Flores, sua próxima novela no streaming da Globo que começa na próxima quarta-feira, 19/10, justamente tendo feito 10 anos do último capítulo de seu fenômeno e considerada melhor novela "Avenida Brasil", que parou o Brasil. Depois das últimas obras que ele escreveu às 21h, ele volta a centralizar sua trama em personagens femininas, contará a trajetória de três mulheres: Uma mãe má e grande vilã da história Zoé, a heroína cega e doce Maíra e a irmã Vanessa, que é uma mulher dúbia e duvidosa, outra vilã, mas muito sedutora e fascinante, vividas por Regina Casé, Sophie Charlotte e Letícia Colin.


REGINA CASÉ VILà


"É  uma loira cafona, veio de baixo mas subiu na vida, conseguiu sobreviver através de golpes, roubar marido dos outros, enganar amiga, traiu um infeliz chamado Rivaldo (Chico Diaz), que só usou mas o detestava, melhorar de vida aos poucos, e frequentar os grandes salões da alta sociedade carioca, hoje mora na Barra e tem horror ao passado miserável. É um pouco inspirada nas figuras que conheci e esbarrei no Rio. Participei da escolha da grande Regina Casé porque ela tem a identidade da Zoé, é uma mulher brasileira, e a Zoé apesar de suas maldades, é uma figura muito carismática, ambivalente como as minhas vilãs geralmente são, não é uma psicopata, embora seja egocêntrica e narcisista. Pode cativar e fazê-la odiá-la também.


HISTÓRIA


"Tem várias histórias, ela é inspirada em três obras literárias clássicas, Medeia do grego Euripedes, Ensaio Sobre a Cegueira do José Saramago, Álbum de Família e outras obras do Nelson Rodrigues. Da Medeia peguei um pouco a história da Zoé, que constrói um império mesmo que tenha devastado a vida de vários personagens, principalmente das filhas, é uma figura também muito narcisista e egocêntrica, falsa, não tem tantos limites morais e éticos, embora tenha um lado humano e complexo também. Do Álbum de Família do Nelson peguei a história da família que parece perfeita, mas é disfuncional, desequilibrada, tóxica, mas tem aquela trajetória, e do Ensaio sobre a Cegueira, criei a mocinha cega, mas vale lembrar que ela não é cega só pela função social, e sim para mostrar a percepção da ideia das pessoas sobre as outras e também sobre as situações. Cada um tem uma percepção sobre alguém, e muitas vezes estamos cego que o próprio deficiente visual. Será mesmo que uma pessoa que está cego por poder, dinheiro, ambição, por alguém, por uma ideologia, por ódio, é superior a um deficiente visual? A cegueira funciona também como metáfora. Falo disso!"


VILÃ COM CÂNCER


"Muitos espectadores ficam meio relutantes em se deparar com questionamento moral de meus personagens. Geralmente um folhetim é doutrinário, temos uma personagem boa e outra má, mas nunca gostei nisso e depois que eu fiz A Favorita eu quis mostrar que podemos surpreender e trazer até algo novo para o público. Em Avenida tivemos a Nina, que por mais que no fundo tivesse boas intenções, era uma anti-heroína, capaz de atos escusos para conseguir realizar a sua vingança contra a Carminha, uma bandidinha, e o Romero de A Regra do Jogo que por mais que fosse socialista e gostasse de sua ideologia, era corrupto e depois se regenerava. O Beto de Segundo Sol que era o tradicional mocinho, mas enganava o público também. Agora teremos a Vanessa, interpretada por Letícia Colin, uma vilã com câncer. Quem tem câncer geralmente é a mocinha."


MOCINHA CEGA


"Tem a questão que me perguntam da atriz Sophie fazer a Maíra, que é uma mocinha cega, e a atriz não tem essa deficiência. Não participo totalmente da escolha, claro que posso opinar falar mas a decisão final é sempre da direção, e hoje temos produção de elenco, temos várias coisas. Mas vale lembrar que não cumpro só função social, terá outros personagens que tem a deficiência visual, que serão abordados e será a primeira novela que terá autodescrição, mas a cegueira também será mostrada como uma metáfora sobre a percepção e ideias erradas que temos de pessoas e situações. Tem um teor filosófico também. Então claro que o movimento é importantissimo, precisamos ter cada vez mais representatividade, mas a Maíra ser interpretada por uma atriz cega ou não, não faz tanta diferença"


UM Q DE A FAVORITA?


"Sim, tem isso de Todas As Flores ser parecida com A Favorita de ser um thriller policial, com aquele melodrama clássico também embora A Favorita seja uma novela que saia um pouco dos modelos tradicionais, como falei tem várias histórias. Mas aqui temos a diferença, A Favorita falava sobre a dúvida porque por mais que tenham comprado a versão da Flora, ainda se tinha muita dúvida, questionamentos, Todas As Flores também é um questionamento, mas tem a ideia da cegueira psicológica, moral e social dos personagens, não tem muito a dúvida, aí quando se tocam e se dão conta, tem aquela surpresa, aquela reviravolta"


STREAMING


"Tenho a impressão de que a direção da Globo quis dar dois tiros ao mesmo tempo. Um na TV aberta e outro no streaming. Tanto que estão lançando quase concomitantemente os maiores investimentos (“Travessia” estreou na última segunda-feira às 21h). Mas não achei ruim sair do horário nobre. (Teve gente dizendo que) eu não estava contente. Acho pioneiro. Uma experiência nova. Eu tô gostando, posso ousar mais também.


PERSONAGENS SEDUTORES 


"Tem muito personagens sedutores, infieis, ela tem um Q Rodrigueano, terão personagens calorosos, sexuais, falo das pequenas e grandes hipocrisias, da podridão humana, mas também sexual. Terá muitos personagens fogosos, um lado bem promiscuo. As cenas de sexo na novela serão triplicados, posso ousar mais nesse trabalho sem preocupação de grupos conservadores e coxinhas. Investirei na nudez!"


OS QUASE GAYS


"Tem essa questão que sempre me perguntam, que eu heterossexualizo personagens, não acho que seja verdade. Para mim sexualidade como sempre falei é algo muito amplo, sou casado há anos com Carmo Dalla Vecchia (Ator), mas já tive experiências heteroafetivas, acho natural, acho que a gente se apaixona por pessoas. E abordagem para mim tem que ser algo natural, bem construída, eu tenho que desenhar os personagens e a história aos poucos para ver se aquilo dá certo, tem que ver a química dos atores, não é assim. E eu faço a novela para mim e o público, mas eu tenho sempre que me agradar em primeiro lugar, se não não sinto prazer. Tem a questão de gênero também que falam, os esteriótipos, eu sempre andei com todo mundo, principalmente com os héteros, andava com a galera do surf, do futebol, detestava brincar de boneca. Mas nessa obra tem de tudo, o bissexual que se apaixona por uma pu**, casal lésbico, um casal gay que vive um relacionamento abusivo e violência doméstica, que eu acho importante de falar , terá linguagem neutra."


FAMÍLIA TÓXICA


"Sempre trago a questão da família, que sou apaixonado, já que sou filho e neto único, mas nessa será uma família tóxica, desequilibrada e disfuncional, embora não tenha só ódio e vai muito para sentimentos extremos e ambíguos, mas você vê que é uma família dificil, triste, desestruturada, tem muitas mães e famílias tóxicas, e isso precisa ser falado. Trarei isso para Todas As Flores!"



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